Cigarro: Jogo de Vida ou Morte

Rio de Janeiro, 19 de junho de 2001.

 

               Notícias publicadas pela mídia em 04 de junho de 2001, sobre uma indenização bilionária, que a indústria tabagista deverá pagar a um cidadão americano, ressuscitaram nestes dias em que se comemora o Dia Mundial de Combate ao Fumo, reflexões sobre a postura dessas empresas.

               Grandes fabricantes de cigarro, no mundo, têm dado demonstrações claras de reconhecimento do óbvio. Já aceitam publicamente que o cigarro é uma droga que vicia, causa dependência e que sua suspensão é acompanhada de síndrome de abstinência.

               Renderam-se aos resultados de inúmeros trabalhos científicos que comprovam a associação entre uso de cigarros e várias doenças e em especial as enfermidades cardiovasculares e têm elas pago somas astronômicas para indenizar aqueles que adoecem ou morrem pelo vício do cigarro. Empresas como a British American Tobacco (à qual pertence a Souza Cruz) e a Philipp Morris, têm diversificado suas atividades, investindo especialmente na indústria de alimentos. Não há dúvidas que os fabricantes de cigarro nos países do primeiro mundo, estão se sentindo acuados pelas evidências e buscam medidas protetivas para a suas empresas. E se defendem como podem, das acusações e processos que sofrem.

               Relatório da Organização Mundial de Saúde citado em O Globo de 03 de agosto de 2000, acusa os fabricantes de cigarro de conspiração e sabotagem. Segundo o relatório o mínimo que fazem é comprar cientistas, o que permite pesquisas falsas, espionagem, boicote, visando sempre o convencimento do usuário.

               Afinal de contas a luta é grande. São fabricantes de uma droga perigosa, mas legalizada. Vendem, e todos sabem disso, inclusive os usuários, um veneno que mantém o vício de 1 bilhão de fumantes no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde e que mata 8 pessoas por segundo. É evidente que grupos que têm como meta apenas o lucro e como ética apenas o dinheiro, não desistirão facilmente.

               No primeiro mundo, indenizam, reduzem a propaganda, diversificam as aplicações. O consumo de cigarros cai nos países desenvolvidos, onde a população informada e consciente abandona o vício. O alvo passa a ser os países em desenvolvimento, com uma massa ainda pouco informada sobre os perigos do cigarro, com governos pouco comprometidos com a saúde pública e elites submissas e deslumbradas diante do poder econômico dessas empresas.

               E o consumidor? É obviamente um dependente químico, que caiu nas malhas da propaganda da indústria tabagista. Cada vez mais, adultos conseguem parar de fumar. Mas o lucro da indústria não pode ser reduzido. O que fazer? Investir nos jovens. E baseado em inúmeras pesquisas que demonstram que 80% dos usuários de cigarros iniciam o uso antes dos 16 anos (o mesmo ocorre com outros tipos de drogas). O adolescente é a presa mais fácil, porque é natural nele a busca intensa do prazer a qualquer custo, o desafio à sociedade, a tendência grupal e uniforme das atitudes, o distanciamento temporal da realidade da enfermidade e da morte, já que sendo jovens e saudáveis não temem a morte que se lhes apresenta como um problema dos velhos. É uma constatação: o ser humano se torna dependente do tabaco na adolescência e passa a temer seus malefícios na vida adulta, quando sabiamente procura escapar da droga que o seduziu na juventude. Sabendo-se disso, qual pode ser a estratégia de fabricantes da droga-cigarro? Seduzir os jovens e os desinformados. Mas esta estratégia não funciona mais nos países desenvolvidos. O alvo passa a ser os países em desenvolvimento.

               No Brasil, a indústria de cigarros atua na contra-mão do que ocorre no mundo desenvolvido. Como se ignorasse os malefícios do cigarro e que tudo que se fala do produto fosse contos da carochinha, entrou em luta contra o projeto do Ministério da Saúde que proíbe propaganda de cigarros, com estratégias e argumentos os mais frágeis.

               Em entrevista ao Jornal do Commércio em 01 de agosto de 2000, o presidente da Souza Cruz, Flávio Andrade, criticou de forma pueril o projeto, classificando-o de eleitoreiro e avisando à sociedade da perda que ela terá sem o seu patrocínio de eventos culturais e esportivos, como o Free Jazz e a Fórmula Indy. A quem pretendem enganar? Felizmente venceram a lógica e o bom senso. Afinal, em última análise, o que o projeto objetiva é o que todo brasileiro consciente deseja: que os jovens, os mais suscetíveis à propaganda enganosa, fantasiosa, cínica e mentirosa do cigarro, não iniciem o seu auto-envenenamento na adolescência. Quem poderia estar contra um projeto que se destina a garantir a saúde da população e a redução em médio prazo, dos gastos de bilhões de reais pelo SUS, com as doenças causadas pelo cigarro?

               Para defender a droga-cigarro e a sua propaganda são usados argumentos frágeis como a defesa da liberdade de expressão ou contornáveis como os alegados prejuízos à agricultura especializada, prejuízos na realidade só existentes a curtíssimo prazo ou discutíveis e improváveis como os prejuízos à cultura e ao esporte e até a alegação feita pela ABIFUMO de que a lei que proíbe a propaganda de cigarros estimula o contrabando e prejudica a receita. Ora, em relação a este último argumento, todos conhecem a importância do contrabando que se realiza há muitos anos para os países da América Latina, sobretudo para o Paraguai, Uruguai e Peru. Será que tem havido um real empenho das empresas de cigarro em combater este contrabando, que na realidade, aumenta o faturamento da empresa, mas pesa aos cofres públicos? Será apenas figura de retórica ou fantasia um "gerente de retorno", para lidar com os cigarros que retornam ao Brasil após entrarem ilegalmente no Paraguai, por exemplo?

               Mas além dessa luta aberta, direta, para manter o lucro, uma das empresas de tabaco no Brasil, a Souza Cruz, lançou mão de uma estratégia que visa encobrir o mal que faz à população com seu produto único: criou o Instituto Souza Cruz. Pretende esse instituto, além de alardear qualidade de vida, desenvolvimento sustentável em várias áreas e redução da pobreza, reduzir o uso de cigarros por jovens, através de projetos sócio-educativos, na linha do reforço dos valores familiares. Ora, é paradoxal, é contraditório e não crível que o interesse do Instituto Souza Cruz, cuja logomarca é a folha de fumo, tenha por objetivo reduzir o lucro da empresa, exatamente através do segmento da população mais frágil e que por isso tem sido seu alvo principal: os jovens. O artigo "O fumante é viciado, não idiota", de Elio Gaspari, publicado na imprensa em 06 de agosto de 2000, analisou com grande propriedade a questão.

               Apoiar projetos sociais principalmente em parceria com o terceiro setor tem sido prática de muitas empresas brasileiras. Muitas são empresas que pela qualidade de seus produtos e sua aceitação pela população, dispensam investimentos para melhorar a imagem, não buscam redução de impostos, mas na realidade participam porque essa é uma das funções do empresariado moderno.

               Mas porque acreditar nos propósitos do Instituto Souza Cruz? O próprio presidente da Souza Cruz afirmou em entrevista ao Jornal do Commércio de 01 de agosto de 2000, que "a indústria de cigarros não é hoje uma das mais populares". Portanto, envolver cigarros com arte e cultura e aplicar alguns poucos milhões em projetos sociais, são tentativas óbvias de melhorar a imagem. Mas daí a pretender assumir uma bandeira que nunca será a sua, a distância é enorme. Afinal a Souza Cruz ao contrário de outras empresas só tem um produto à venda: uma droga que mata. E como empresa competente que é, faz tudo para manter seu faturamento.

               É essa a lógica. Não nos iludamos. É um jogo de vida ou morte cujas regras não são regidas por conceitos éticos e morais, como bem demonstrou o relatório da OMS. É um jogo de vida ou morte. Afinal a vida da empresa significa a morte de milhões de pessoas e a luta pela saúde dessas pessoas pode ser a morte da empresa.

               Por outro lado, não aceitar o cinismo com que nos tratam é tarefa de todos nós, pais e educadores, que servimos de modelos para nossos filhos e para os jovens em geral.

 

Lauro Monteiro Filho

Médico Pediatra/Presidente da ABRAPIA